Você já viu isto: um produto aparece com "de R$ 199 por R$ 99", 50% de desconto, contagem regressiva na tela. Você compra. Duas semanas depois, o mesmo produto está a R$ 95 sem promoção nenhuma.
O desconto não era falso por acaso. Ele foi construído.
Como o truque funciona
A manobra é simples: dias antes de uma data promocional, o vendedor sobe o preço do produto. Se ele custava R$ 100 o ano inteiro, vira R$ 180 na véspera. No dia da "promoção", volta para R$ 120 — e é anunciado como 33% de desconto.
O comprador vê o corte de R$ 180 para R$ 120 e compara com um número que nunca foi real. O preço de referência é ficção; o desconto também.
Isso não é ilegal na maioria dos casos, porque o "preço de" costuma ser o preço sugerido pelo fabricante ou um valor que o produto realmente teve por algumas horas. Mas é enganoso, e funciona porque quase ninguém guarda o histórico.
Três formas de verificar
1. Compare com o preço mediano, não com o "preço de". O número que importa não é o que a loja riscou — é quanto o produto custou na maior parte do tempo. Um desconto real coloca o preço abaixo da mediana dos últimos meses. Se o "promocional" está acima dela, é preço normal com etiqueta nova.
2. Desconfie do desconto redondo e enorme. Categorias com margem apertada — eletrônicos de marca, eletrodomésticos conhecidos — raramente comportam 60% ou 70% de corte real. Descontos assim são comuns em produtos sem marca, onde o preço "cheio" é arbitrário desde o começo.
3. Olhe o preço, não a porcentagem. A porcentagem depende de uma referência que você não controla. O valor absoluto, não. Antes de comprar, procure o mesmo produto em duas outras lojas: se o preço "promocional" bate com o preço normal das concorrentes, não há promoção.
O que fazemos aqui
Registramos o preço de cada produto que acompanhamos várias vezes ao dia, todos os dias. Isso constrói um histórico próprio — e é contra esse histórico, não contra o preço riscado pela loja, que calculamos se um desconto é real.
Na prática, aplicamos dois cortes antes de publicar qualquer oferta:
- O preço atual precisa estar abaixo do primeiro quartil dos últimos 90 dias. Ou seja, entre os 25% mais baratos que aquele produto já esteve no período.
- Precisamos ter amostras suficientes para afirmar qualquer coisa. Produto que começamos a acompanhar ontem não recebe selo de preço, porque uma única leitura não é histórico.
Quando você vê "menor preço em 90 dias" em uma oferta nossa, é porque o valor de hoje é o mais baixo que registramos no período — não porque a loja disse isso.
O caso em que o desconto pequeno vale mais
Uma consequência incômoda: as melhores compras raramente têm o maior número na etiqueta. Um produto que sempre custou R$ 300 e hoje está R$ 240 tem 20% de desconto real — e vale mais a pena que outro anunciado com 70% de corte sobre um preço inventado.
É por isso que ordenamos as ofertas por desconto real, e não pelo que a loja anuncia. Costuma dar uma lista bem diferente.